A ministra das Relações Exteriores da Venezuela, Delcy Rodríguez, disse nesta sexta-feira (29) que o país assumirá a presidência rotativa do Mercosul, apesar de o impasse sobre o comando ainda não ter sido resolvido. A passagem da liderança do bloco para Caracas dividiu seus membros. Enquanto o Uruguai, atual ocupante, deseja entregar a presidência, Brasil e Paraguai se opõem devido à crise no país comandado por Nicolás Maduro. Deste modo, o comando do Mercosul ficará vacante a partir de segunda-feira (1º) pela primeira vez em 25 anos.
Em entrevista ao canal sul-americano Telesur, financiado por Caracas, Rodríguez afirmou que a decisão é inadiável. Para ela, os governos paraguaio e brasileiro fazem um esforço inútil em impedir seu país. "É impossível que não se possa respeitar o cumprimento do tratado constitutivo do bloco, que prevê a passagem por ordem alfabética. Por isso, deve ser transferida sem nenhum tipo de adiamento, sem nenhum tipo de desculpa." A declaração foi feita horas antes de o governo uruguaio informar que concluiu seu período no comando do bloco, mas sem anunciar a passagem da presidência rotativa a nenhum dos membros do Mercosul. "O Uruguai entende que hoje não há argumentos jurídicos que impeçam a passagem da presidência pro tempore à Venezuela", informou, em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do país. Apesar da nota, o chanceler uruguaio, Rodolfo Nim Novoa, reconheceu a gravidade da situação. "Estamos em um verdadeiro problema, um grande problema", disse, em entrevista a um canal local. Os anúncios uruguaio e venezuelano ampliam o impasse entre os membros do bloco. Devido à divisão interna dos demais membros sobre Caracas, foi cancelada uma reunião de chanceleres prevista para este sábado (30). No dia 11, os chanceleres chegaram a se reunir, mas persistiram as diferenças. O conflito levou ao cancelamento da reunião de presidentes para a passagem do comando do Mercosul, que seria realizada no início de julho. O Paraguai considera que a Venezuela não cumpre com a cláusula democrática devido às prisões de opositores a Nicolás Maduro, à repressão a protestos e à interferência do Executivo no Judiciário e no órgão eleitoral. Nesta sexta, o chanceler paraguaio, Eladio Loizaga, disse que a presidência ficará vaga até que os países membros se pronunciem sobre a situação —a presidência rotativa, que tem duração de seis meses, precisa ser aprovada por consenso. Oficialmente, o Itamaraty pede que Caracas cumpra com os requisitos do bloco antes de assumir. Apesar de ter entrado há quatro anos no Mercosul, a Venezuela ainda não está conforme com tratados comerciais e sociais. Em entrevista em Brasília, o presidente interino Michel Temer reiterou a posição. "O Brasil não exatamente se opõe à transferência, mas pondera que [a Venezuela] têm que cumprir os requisitos acertados há quatro anos." As autoridades argentinas não se pronunciaram sobre a declaração de Rodríguez. O governo de Mauricio Macri evitou ter uma posição definida, embora o presidente tenha afirmado não se opor em assumir o bloco em caso de impedimento venezuelano —a Argentina é a próxima da lista.
Folhapress.

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