Descalça, como quando corria pelas ruas da Cidade de Deus aos 5 anos, Rafaela chorou ao ouvir o gongo soar. Negra, de origem pobre, com o sobrenome Silva - o mais brasileiro de todos, que não escolhe cor, nem classe social -, Rafaela chorou novamente ao ouvir o Hino Nacional. Chamada de macaca, de vergonha para a família, a judoca que havia sido desclassificada em Londres-2012 foi aplaudida de pé na Arena Carioca 2.
É campeã olímpica na categoria 57kg. A primeira medalha de ouro do país nestes Jogos Olímpicos do Rio-2016 não podia ter simbologia e significados maiores: veio de alguém que representa a maior parte de seu povo. “É muito bom para as crianças estarem assistindo ao judô. É uma ajuda a elas esse resultado. Uma criança que saiu da Cidade de Deus com 5 anos, começou por brincadeira no judô, hoje é campeã mundial e olímpica. É inexplicável. Se elas têm um sonho, elas têm que acreditar que ele pode se realizar. Se não fosse o judô, estaria até hoje brigando na Cidade de Deus”, disse Rafaela ontem, logo após vencer a mongol Sumiya Dorjsürengiin por wazari na final. Ela havia sido campeão mundial em 2013, também no Rio.
Rafaela nasceu numa das comunidades mais pobres do Rio, eternizada e conhecida mundialmente pelo filme homônimo de Fernando Meirelles. Conheceu o judô dentro do projeto social Reação, do ex-judoca Flávio Canto, que tem como um dos técnicos Geraldo Bernardes, 73 anos. Ex-técnico da seleção brasileira, o sensei, um dos poucos a ostentar a faixa vermelha no país, foi o descobridor da medalhista de ouro e ganhou um longo e emocionante abraço. Em Londres-2012, Rafaela foi desclassificada na segunda rodada por aplicar um golpe ilegal. A eliminação gerou críticas e ofensas – racistas, inclusive – nas redes sociais. Ao se deparar com elas, a judoca rebateu, entrando em discussão na internet. A decepção gerou um tornado dentro da carioca de agora 24 anos.
“Depois da minha derrota em Londres, eu ia largar o judô. Comecei um trabalho com a minha coach Nell Salgado e ela não me deixou abandonar. Em 2014 e 2015 não tive bons resultados, fui eliminada do Campeonato Mundial na primeira rodada. Estava meio desacreditada, as pessoas diziam que eu era uma incógnita. Mas treinei o máximo que eu podia nesses dois últimos anos e o resultado veio através dos meus treinamentos”, contou.
Treinamento e foco. Rafaela ganhou todas as lutas por golpes encaixados. Contra a alemã Miryam Roper, um ippon. Nas oitavas, um wazari contra a sul-coreana Jandi Kim, em luta bem tensa. Nas quartas, o reencontro com a húngara Hedvig Karakas, a mesma da luta em que foi eliminada em Londres. Wazari. Na semifinal, a romena Carina Caprioriu foi quem ofereceu mais resistência. Só caiu no golden score, também por wazari. Na final, outro wazari deu a Rafaela a medalha de ouro.
Macaco
“Para todos que falaram que eu era vergonha para minha família, que eu não tinha capacidade de estar numa Olimpíada, que era para eu estar numa jaula, eu mostro que eu posso estar entre as melhores. Disseram que eu era uma vergonha para minha família e hoje pude dar alegria para eles. O macaco que era para estar na jaula hoje é campeão olímpico em casa”, desabafou a judoca de ouro, que dedicou a medalha à família, aos amigos e aos que vibraram na arquibancada.

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